Colegialidade Episcopal na Amoris Laetitia

Toda ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura; no anúncio e testemunho que a Igreja oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia

No dia 8 de abril de 2016, o Papa Francisco nos presenteou com uma exortação apostólica pós-sinodal sobre o amor na família: Amoris Laetitia. Ela contém reflexões e  trabalhos dos sínodos de 2014 e 2015, um extraordinário e outro ordinário.

Além disso, reporta-se a documentos e ensinamentos de São João Paulo II, em particular, Familiaris Consortio; do Beato Paulo VI, Humanae Vitae e de Bento XVI, Deus Caritas Est. Também podemos encontrar citações de conferências episcopais de vários países como Quênia, Austrália, Coreia e também de personalidades como Martin Luther King, Erich Fromm, Octavio Paz e do filme “A Festa de Babette”.

Na introdução, podemos perceber que o documento traz uma grande catequese sobre o amor conjugal e familiar quando afirma: “o caminho sinodal permitiu analisar a situação das famílias no mundo atual, valorizar a importância do matrimônio e da família” (n. 2).

O que achei sui generis na leitura da exortação foi quando, na introdução, Francisco nos interpela a aprofundar o capítulo oitavo (n. 7). Nesse capítulo, o Papa usa três verbos importantes: “acompanhar, discernir e integrar,” que são fundamentais para responder à situação de fragilidade dos matrimônios irregulares.

Sem entrar em detalhes, a exortação tem um estilo pedagógico, compreensivo e acessível ao cristão-leigo sobre o acompanhamento das pessoas feridas ou que se colocam à margem da Igreja e revela a evolução eclesiológica do Papa Francisco.

Bergoglio faz uso extensivo dos documentos que o Sínodo dos Bispos produziu em suas assembleias de 2014 e 2015. No capitulo 8 faz 21 vezes referência do Sínodo. Lendo-os, lembrei-me de Francisco quando fala de uma Igreja sinodal, uma Igreja que viva a beleza do caminhar juntos, expressando respeito em escutar os padres sinodais, isto é, o reflexo da colegialidade episcopal.

Pude, portanto, perceber na exortação apostólica o apreço do papa pelo caráter sinodal da Igreja, pelo desejo de estar em comunhão com os padres sinodais diante dos resultados dos Sínodos.

No discurso que Papa Francisco proferiu, em 17 de outubro de 2015, na sessão comemorativa dos 50 anos da instituição do sínodo dos bispos ele afirmou que a “Igreja e sínodo são sinônimos” porque a “Igreja não é outra coisa senão caminhar juntos”. Falou também de uma salutar descentralização de certas decisões das conferências episcopais, sinalizando o caráter colegial das Igrejas particulares.

Papa Francisco sempre afirmou ser a “sinodalidade” uma das maiores preciosidades do Concílio Vaticano II. Declarou que este é o caminho que Deus quer para a Igreja.

“Confiar no povo de Deus e ser Igreja de escuta” foram as duas marcas do discurso do Papa, que considerou que mais do que ouvir, a Igreja deve mesmo promover a escuta recíproca onde todos têm algo para aprender.

É com estas motivações do resultado na vivência da colegialidade episcopal do Sínodo que podemos entender papel dos sacerdotes nas chamadas “situações irregulares”, quando o Papa exorta que “nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais”, pois, na situação concreta, o tempo urge mais do que o espaço, e nesse sentido, em certas situações irregulares, o sacerdote deve ter consciência de que sua posição deve ter caráter colegial e exercer a colegialidade.

A colegialidade episcopal busca expandir a noção de sinodalidade para além do encontro formal dos bispos no próprio Sínodo, pois a Amoris Laetitia documenta: a Igreja não pode tentar “impor normas pela força da autoridade” (n. 35); uma Igreja “humilde e realista” (n. 36); uma Igreja “chamada a formar as consciências, não pretender substituí-las”; uma Igreja que não pode “agir na defensiva gastando as energias pastorais e multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” (n. 38).

Neste sentido, podemos considerar a importância dos sacerdotes agirem em comunhão, em colegialidade, diante de situações irregulares:

  1. O diálogo com os sacerdotes, no foro interno, concorre para a formação de um juízo reto sobre aquilo que impede a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem favorecê-la e levá-la a crescer (cf. n. 300);
  2. Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais aos que vivem em situações “irregulares,” como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas (cf. n. 305);
  3. Os pastores, que propõem aos fiéis o ideal pleno do evangelho e da doutrina da Igreja devem ajudá-los também a assumir a lógica da compaixão pelas pessoas frágeis e evitar perseguições ou juízos demasiados, duros e impacientes (cf. n. 308);
  4. Toda ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura; no anúncio e testemunho que a Igreja oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia (cf. n. 310).

No entanto, podemos concluir e entender uma compreensão nova e radical do papel do Papa que vem nos ensinando em seus discursos que a Igreja deve promover a escuta recíproca onde todos têm algo para aprender: os fiéis, o colégio episcopal e o bispo de Roma. Francisco acolhendo as propostas dos padres sinodais, em ambos os sínodos citados, revela sua concepção de uma Igreja marcada pela colegialidade.

 

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