A Missão da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia fiel ao carisma de Santo Inácio de Loyola e ao Magistério da Igreja

A trajetória de Inácio de Loyola revela a sua abertura ao Espírito Santo e uma atuação promotora da vida carismática do Povo de Deus; assim, a missão específica de sua família religiosa torna-se referência na caminhada pastoral da Igreja

A Igreja nos reúne, neste dia, para celebrar a festa de Santo Inácio de Loyola, cujos ensinamentos e testemunho de vida colocam-no como protótipo daqueles que, no seguimento de Cristo, merecem ser lembrados e imitados. O Evangelho (Lc 14, 25-33) que acabou de ser proclamado, num primeiro momento, aponta Jesus sendo seguido por uma grande multidão (v.25). Dirigindo-se então às pessoas, Jesus proclama que ninguém pode ser “seu discípulo” se não renunciar aos afetos mais queridos, à sua própria vida, e se não seguir o Mestre carregando atrás dele a sua cruz (vv. 26-27). Depois, com as parábolas, ou melhor, com a comparação da torre a construir e da guerra, que não se devem começar sem possuir as condições adequadas, Jesus declara a impossibilidade de ser seguido por aqueles que não renunciam aos seus haveres (vv 28-33).

Os dois exemplos empregados por Jesus são diferentes, mas o ensinamento é o mesmo: aquele que empreende um projeto importante de maneira temerária, sem examinar antes se tem os meios e forças para conseguir o que pretende, corre o risco de terminar fracassando. Estes exemplos repetem a mesma coisa: os dois personagens sentam para refletir as exigências, os riscos e as forças com que podem contar para levar a cabo seus empreendimentos. Jesus quer ensinar que ninguém deve comprometer-se com Ele de forma inconsciente, temerária ou presunçosa. Seria uma grave irresponsabilidade viver hoje como discípulos de Jesus quem não souber o que quer nem onde pretende chegar. É fundamental saber com que meios irá atuar. Seguir Jesus é colocá-lo no centro da vida. Quem não coloca Jesus e o Reino de Deus no centro da sua vida e acima de tudo não pode ser seu discípulo. A expressão “não pode ser seu discípulo” ressoa três vezes como um refrão incontornável no Evangelho de hoje (vv. 26,26 e 33).

São Lucas, que é o evangelista da misericórdia, apresenta exigências radicais para o seguimento de Jesus, vividas por Inácio também de forma radical:

  1. a) Seguir Jesus é como querer construir uma torre, portanto um edifício imponente e dispendioso para o qual se requer um grande investimento inicial e um compromisso de longa duração. Um empenho decisivo e perseverante;
  2. b) Seguir Jesus é possível abraçando grandes sacrifícios. É preciso renunciar a todos os bens.

Prezados irmãos, a vida e a espiritualidade de Inácio entrelaçam-se naquela que foi e é sua maior obra – a Companhia de Jesus. Por isso, a celebração de hoje se enche de especial significado e nos desperta para o seguimento radical, humano, histórico, existencial de Jesus. A trajetória de Inácio de Loyola revela a sua abertura ao Espírito Santo e uma atuação promotora da vida carismática do Povo de Deus; assim, a missão específica de sua família religiosa torna-se referência na caminhada pastoral da Igreja. Á luz do evangelho de hoje, podemos perceber na vida de Inácio três princípios fundamentais se quisermos formar discípulos missionários como a Igreja no Brasil vem nos alertando:

  • Um primeiro aspecto é sua profunda e íntima experiência de Cristo.

Desde os tempos de estudante, frequentando os exercícios espirituais em Itaici tive a oportunidade de aprender a profunda transformação de Inácio. De naturalmente propenso a “batalhas militares”, após ser ferido em uma guerra, recolhe-se a uma vida isolada. Nela, Inácio se enamora por Jesus, com a leitura atenta e criteriosa das Escrituras, da Vida de Cristo e de outras obras piedosas. Inácio conheceu profundamente a pessoa de Jesus, e todo o processo de ser conquistado por Ele (Fl 3,4- 16). Foi capaz de centrar afetiva e efetivamente sua vida em Cristo. Viveu como Cristo. Foi capaz de uma busca séria de pensar e agir como Jesus, em obediência radical à vontade salvífica do Pai. Também foi capaz de assumir a cruz de Cristo numa participação ativa na salvação do mundo. Inácio foi chamado para seguir Jesus (vocação), viveu com Cristo (intimidade), viveu como Cristo (configuração) e assumiu seu destino, oferecendo a vida pela salvação da humanidade. Uma verdadeira conversão cristológica.

  • Um segundo aspecto na vida de Santo Inácio é o salto definitivo da fé, salto que se dá por meio do exercício intelectual.

Impressiona que um primeiro movimento do intelecto fosse capaz de mover o coração irascível de Inácio e, através dele, os corações de tantos filhos seus que  lançaram a semente do Evangelho por todo o mundo, muitas vezes à custa do próprio sangue. Não poucos se abriram para o carisma fundacional através de experiências arrebatadoras de conversão ou sensibilidade pastoral, sob a influência de diretores, na vida recolhida dos eremitérios ou no apelo das necessidades prementes. Inácio, porém, diversamente, descobre o carisma fundacional pela mediação de livros. Esse fato é profundamente revelador do dom carismático da Companhia de Jesus na Igreja. Esse recorte na biografia do grande fundador nos enseja uma oportuna reflexão sobre a atualidade de sua proposta e a missão central de seus filhos, para as necessidades da Igreja hoje: preparar membros aptos para evangelizar com novo ardor missionário na sociedade contemporânea, que vivencia o conflito de gerações. A nossa ação pastoral, sem conhecer o homem de hoje, dificilmente poderá apresentar-se como caminho de humanização, proposta central do mais ilustre filho de Santo Inácio de nossa época, o Papa Francisco. Nos últimos anos, estamos percebendo a eclesiologia do Papa Francisco que fala de uma Igreja em saída. Ele fala do anúncio do evangelho no mundo atual e solidifica a máxima da “Igreja em saída”. “A Igreja ‘em saída’ é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido (cf. EG 46). Significa que todos podem participar de alguma forma, da vida eclesial. Todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer” (cf. EG 47). A Companhia de Jesus, através da Faje, vem colocando em prática o carisma intelectual de Santo Inácio com uma formação de alto nível, atraindo pessoas de várias regiões. Centro irresistivelmente convidativo ao estudo das verdades reveladas à luz do magistério ordinário e extraordinário, com exímios professores, focando um forte senso de missionariedade, uma Igreja irresistível. Além de ser um grande foco de evangelização, podemos comparar a Faje com uma grande embarcação. Corpo docente e discente, aprendendo a pilotar a embarcação Igreja neste mundo da contemporaneidade e dos conflitos de gerações numa cultura do saber (ciência) e do fazer (tecnologia). Nesse momento peculiar de nossa história evangelizadora, de tantos caminhos e descaminhos, a proposta de Inácio faz-se atual e extremamente oportuna. O exercício intelectual, ao qual essa instituição se dedica, é um aspecto imprescindível no processo da nova evangelização. É mister dividir e compreender limites para vislumbrar enfrentamentos. Esmiuçar o fenômeno humano em nossa época, em vista da humanização mesma, é a grande contribuição que a Igreja espera daqueles que servem a Deus pelo exercício do intelecto.

  • O terceiro aspecto da vida de Inácio a ressaltar é a sua intuição pastoral segundo as circunstancias eclesiais de sua época.

Essa perspectiva me faz propor, estimados irmãos e irmãs, uma reflexão sobre determinados aspectos de nossa ação pastoral, que considero imprescindíveis na compreensão proativa da ação evangelizadora, e que nos permite atualizar o grande desejo missionário de Santo Inácio de Loyola, a partir da reflexão e análise criteriosa da realidade que se nos apresenta. Na mesma medida do grande fundador, somos impelidos pela celebração de sua festa a dedicar o melhor de nós “para a maior glória de Deus”.

Evidente que o Evangelho tem sabor e força de atualidade, mas não se pode ignorar que o próprio Jesus esteve atento à sensibilidade de sua época. O uso de parábolas, facilmente decodificadas pelo povo ao qual se dirigia, exemplifica esta sua prática. Também nós evangelizadores, discípulos missionários, devemos nos preocupar em comunicar a “boa notícia”, com atenção à sensibilidade das novas gerações. Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, Papa Francisco apresenta critérios que podem nortear a ação evangelizadora do tempo presente marcado pelo conflito de gerações:

1) O tempo é superior ao espaço: dar prioridade ao tempo em relação ao espaço é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços; é privilegiar ações que geram novos dinamismos na sociedade, comprometendo pessoas ou grupos que se desenvolverão até frutificarem em acontecimentos históricos importantes. Implica em não se deixar seduzir por meras ações conjunturais, mas ser capaz de traçar caminhos, definir estratégias, desencadear processos que façam germinar novas realidades e estar disponível para potencializá-las, “processos possíveis e estrada longa”. Sair da pastoral de manutenção para formar discípulos missionários, que seja profética e misericordiosa ( cf. EG 222-225)

2)A unidade prevalece sobre o conflito: os conflitos precisam ser administrados, pois podem se tornar mais graves e entrarem em uma escalada cuja resolução seja mais difícil. O conflito também faz parte da vida eclesial. Em relação a ele, devemos aceitá-lo, suportá-lo, resolvê-lo e transformá-lo em elo de um novo processo. É preciso trabalhar para a comunhão e a reconciliação. A unidade e a comunhão acima da divisão! Temos anseios diferentes, mas a experiência de unidade deve prevalecer. Nesta mudança de época, devemos superar os conflitos e partir para uma cultura da solidariedade, mantendo a unidade entre pessoas e comunidades diferentes, numa pastoral do encontro (cf. EG 226-230).

3)A realidade é mais importante que a ideia: “a realidade simplesmente é, a ideia elabora-se”. A grande preocupação de Francisco é estabelecer um diálogo entre ideia e realidade. A ideia está a serviço da captação e condução da realidade. Não pôr em 5 prática, não levar a Palavra à realidade é construir sobre a areia. Permanecer na pura ideia é degenerar em intimismos e gnosticismos que não dão fruto. Tendo conhecimento da realidade, podemos organizar melhor a ação evangelizadora (Cf. EG 231-233).

 4)O todo é superior à parte: essa premissa quer chamar atenção sobre a relação entre o global e o local, que geram tensão. Somos chamados a alargar nosso olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos nós. Prestar atenção no global. Na ação evangelizadora, temos que ser ousados para lançar as sementes do Verbo. A ação evangelizadora no que está próximo, no âmbito local, tem que ter horizontes e uma perspectiva mais ampla. Devemos ter em mente o dinamismo de uma “Igreja em saída”, de uma Igreja discípula, missionária, profética e misericordiosa (Cf. EG 234-237). Se planejarmos a ação evangelizadora em nossas comunidades, paróquias e dioceses, e também na Faje, levando em conta as indicações do Papa Francisco, seguramente atingiremos com mais facilidade nosso objetivo e contribuiremos para a realização do mandato de Jesus: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Que Santo Inácio nos ajude a sermos fiéis à missão que Deus lhe confiou e que, hoje, é nossa!

Dom Edson Oriolo

Homilia proferida na Faje na solenidade de Santo Inácio (Julho de 2016)

Fonte: www.faculdadejesuita.edu.br

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