Missa das… ou Missa com…? Um itinerário a ser refletido

No Ritual Romano encontra-se o termo: pelas famílias; em louvor a São José. O Ritual ressalta o sentido da intercessão e louvor agradecido. Chamar atenção como o termo litúrgico e oficialmente empregado pode ser uma forma de alertar os promotores de tais missas que atribuem nela um poder de cura, de esconjuro de forças maléficas que atormentam as pessoas.

Conheço uma pessoa que, ao escrever, sabe brincar ao usar as preposições. Precisa-se de uma hermenêutica bem apurada para entender e perceber a profundidade daquilo que escreve. Os seus escritos fazem jus aos significados do termo hermeneuein, isto é, exprimir ou dizer, explicar uma situação e traduzir.

Nos escritos, usa as preposições estabelecendo conexões das palavras, levando o leitor a pensar os vários sentidos daquilo que escreve. Diverte-se ao escrever as  preposições “para”, “a” e  “com”. Diverte-se, com as preposições, estabelecendo melhores relações com as palavras para exprimir com autoridade e autenticidade o que quer comunicar.

Foi a partir daí que me veio a inspiração de escrever algo sobre como usamos as preposições “de”, “da”, “dos”, “das”, ao intitular uma celebração eucarística ou momentos celebrativos. Hoje, falamos e escrevemos muito “Missa da Família”, “Missa da Juventude”, “Missa dos dizimistas”. Também uma máxima muito conhecida “Terço dos Homens” etc… Será que é uma expressão correta? Basílio de Cesareia (329-379) foi o que mais contribuiu para a correta doutrina sobre a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Basílio recorda que nenhuma preposição é empregada exclusivamente para se referir a uma determinada pessoa divina. Segundo ele, as diversas preposições como, por exemplo, “de”, “por”, “em” são aplicadas indiscriminadamente ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. De seu uso, portanto, não se pode deduzir uma distinção de natureza entre os três. Nos seus textos podemos perceber como valorizou e delimitou o valor da preposição ao expor a doutrina sobre a Trindade.

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Estamos vivendo num mundo de transformações, que já produziu várias gerações: perdida (1883-1900), grandiosa (1901-1924), silenciosa (1925-1942), baby boomers (1943-1960), X (1960-1970), Y (década 80), Z (década 90) e T (touch). Perpassam estas gerações várias experiências de Igreja. Hoje, corre-se o rico de cairmos, muitas vezes, numa eclesiologia intimista, devocionista, fugindo da eclesiologia apresentada pela Igreja no Brasil nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (2015-2019): Igreja discípula, missionaria, profética e misericordiosa.

Assim sendo, esta mudança de gerações que, antigamente, era definida a cada 25 anos, baixou atualmente para 10 anos por causa das mudanças consideráveis em bem menos tempo, pois elas acontecem conforme ocorre um avanço nas tecnologias e no desenvolvimento de raciocínio e aprendizado. Com a evolução destas gerações podemos também evoluir numa compreensão mais eclesiológica das preposições “de”, “da”, “dos”, “das” para a preposição “com”.

As gerações vêm transformando a vida das pessoas em relação aos sacramentos e sacramentais. As gerações estão preocupadas em sacramentais enquanto a Igreja apresenta de maneira objetiva e clara os sacramentos. É por isso que intitulamos as celebrações da Eucaristia em Missa da Juventude, Missa da Cura, Missa dos dizimistas, Missa família etc… e também momentos de oração como “Terço dos Homens”.

No Ritual Romano encontra-se o termo: pelas famílias; em louvor a São José. O Ritual ressalta o sentido da intercessão e louvor agradecido. Chamar atenção como o termo litúrgico e oficialmente empregado pode ser uma forma de alertar os promotores de tais missas que atribuem nela um poder de cura, de esconjuro de forças maléficas que atormentam as pessoas.

Num primeiro momento percebo que temos que fugir do termo “missa” (embora esteja presente na linguagem popular) e resgatar o sentido teológico da Eucaristia: memorial e ação de graças. Falar, então, de celebração eucarística.

Portanto, na fidelidade ao magistério ordinário ou extraordinário nunca devemos intitular as celebrações das missas com as preposições “de”, “da”, “dos”, “das”. Devemos sempre usar a preposição “com” que gera unidade, vinculo, pertença, solidariedade, comprometimento etc.. Enquanto a preposição “de”, “da”, “do” e “dos”, divide, separa, cria classes, rótulos.

As celebrações do mistério na perspectiva do “com” devem ter uma proposta evangélica de uma Igreja em Saída sendo discípulo, missionário, profeta e misericordioso transcendendo-se numa cultura e pastoral do Encontro.

Usando a preposição “com”, estaremos saindo de um devocionismo intimista e partindo para uma eclesiologia do encontro como vem nos ensinando o Papa Francisco.

Na perspectiva do “com”, podemos nos sentir mais próximos uns dos outros, conhecer melhor, sermos mais unidos, harmonizar as diferenças, maior proximidade como filhos e filhas de Deus e sentirmos um renovado sentido de unidade da família humana para fazer memória do mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Acredito que as celebrações do mistério pascal devam ser bem articuladas na experiência do encontro (Cristo-Irmãos): “com” para vivenciarmos o mistério pascal.

No entanto, a doxologia final da oração eucarística nos dá o caminho eclesiológico para compreendermos o “com”. “Por Cristo, com Cristo e em Cristo…” Somos a comunidade de Cristo formada com jovens, com adultos, com famílias, com crianças, etc, e teremos uma participação melhor como assembleia vivenciando o sacerdócio ministerial e comum dos fiéis.

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